E o meu coração embora finja fazer mil viagens.
Fica batendo, parado, naquela estação...

 
(Adriana Calcanhoto)

Celebração

Sei que toda a história do homem foi marcada por interesses, desigualdades, hipocrisia e incontáveis episódios de desrespeito com os mais 'fracos'. Perfeição da Legião Urbana é uma música do século passado, mas impressiona pela letra atual. A verdade é que as relações de poder continuam a tecer a vida humana. O tempo passa e quase tudo se tranforma e ganha novos significados. Lamentavelmente Perfeição é só mais um grito de indignação.

"Vamos celebrar a estupidez humana/ Vamos celebrar a estupidez do povo/ Vamos celebrar nosso governo/ Celebrar a juventude sem escolas/ Celebrar nossa desunião/ Vamos celebrar Eros e Thanatos/ Persephone e Hades/ Vamos celebrar nossa tristeza/ Vamos celebrar nossa vaidade/ Vamos comemorar como idiotas/ Vamos celebrar nossa justiça/ A ganância e a difamação/ Vamos celebrar os preconceitos/ Toda a hipocrisia e toda a afetação/ Todo roubo e toda indiferença/ Vamos celebrar a fome/ Não ter a quem ouvir/ Não se ter a quem amar/ Vamos alimentar o que é maldade/ Vamos machucar o coração/ Vamos celebrar nossa bandeira/ Nosso passado/ De absurdos gloriosos/ Tudo que é gratuito e feio/ Tudo o que é normal/ Vamos celebrar nossa saudade/ Comemorar a nossa solidão/ Vamos festejar a inveja/ A intolerância, a incompreensão/ Vamos festejar a violência/ Vamos celebrar a aberração/ De toda a nossa falta de bom senso/ Nosso descaso por educação/ Vamos celebrar o horror de tudo isto/ Com festa, velório e caixão/ Tá tudo morto e enterrado agora/ Já que também podemos celebrar/ A estupidez de quem cantou essa canção..."

(trechode'perfeição'/ RenatoRusso)

Amigos como antigamente.


O que há de mais fascinante nas pessoas? A resposta talvez seja os seus vários “eus”, essa capacidade incrível de mudança, de adaptação. O que seria de nós, meros mortais, se não fosse a capacidade de mudar? Acredito que exista um espectro ou algo indizível, inexplicável que se faz presente entre nós e que, com um sopro, permite que as pessoas possam entrelaçar seus caminhos. Aí esta a maior beleza, os encontros que a vida nos proporciona surpreendentemente. Essa teia invisível, é capaz de no presente, nos fazer voltar ao passado, projetando algo para o futuro. Futuro incerto, aliás.
 Imagine um cara que você nunca viu na vida, bate na porta da sua casa com a desculpa mais esfarrapada do mundo (crie qualquer desculpa esfarrapada). Conversa vai, conversa vem, esse estranho passa a fazer parte da sua vida. Torna-se amigo dos seus amigos, almoça na sua casa e começa a ser o queridinho dos seus pais. Cada encontro um novo prazer, uma ruma de livros (5 ou mais),  ele se torna insubstituível num ritmo alucinante.
"Sobrenaturalmente" o cara some. Ficou um buraco. O jeito foi readaptar-se, hoje sei que sua aparição foi um preparo para aguçar minha percepção diante de certas circunstâncias pela qual eu teria que passar. Confesso que no seu lugar ainda esta um vazio, foi uma amizade inusitada, eu me sentia protegida, assim também com outros amigos que ficaram pelo caminho. Hoje eu senti muita falta do Dodô, Alessandro, Filho, Cau, David, Júnior, Edson e Janaína.
 Amizade real. Contato real. Instantes de sabedoria e amor. Sinto falta das horas inoportunas, das esperas, dos segredos ingênuos, olhar o céu conversando até dormir, dançar num quartinho apertado, das dicas de música e leitura, das confissões tarde da noite, das surpresas e novidades. Ainda bem que eu conheci todos eles, e sou muito feliz por eles terem deixado na minha vida as melhores lembranças, que muitas vezes serviram e ainda servirão, para aquecer meu coração quando eu estiver me sentindo tão sozinha...