A vida é doce, depressa demais!

Com a mesma falta de vergonha na cara eu procurava alento no seu último vestígio, no território da sua presença, impregnando tudo que eu não posso, nem quero deixar que me abandone.
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro, no presente que tritura as sirênes que se atrasam pra salvar atropelados que morreram, que fugiam, que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa... A vida é doce, depressa demais.
E de repente o telefone toca e é você do outro lado me ligando, devolvendo minha insônia minhas bobagens, pra me lembrar que eu fui a coisa mais brega que pousou na tua sopa. Me perdoa daquela expressão pré-fabricada de tédio, tão canastrona que nunca funcionou, nem funciona...
Me perdoa, a vida é doce.

[Lobão]

Sobre a imaginação


Das faculdades humanas a imaginação é a mais preciosa, exatamente por sua imensa capacidade de nos manter suspensos ou de nos apaziguar perante a adversidade; (...) relendo antigos tratados de retórica, Edmund Burke mostrava, em meados do século XVIII, estar na imaginação a esfera mais vasta do prazer e da dor, por sediar a região de nossos medos e de nossas esperanças, de todas as nossas paixões, e deter a imaginação o poder maior na produção da felicidade, pouco afeita ao restrito domínio da razão.

As máscaras do medo: lepra e Aids
Ítalo A. Tronca - p.13

Os sapatos da Camponesa

Os sapatos da Camponesa - Van Gogh

Da escura abertura do gasto interior do calçado olha-nos fixamente a fadiga do andar do trabalho. Na dura gravidade do calçado retém-se a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que sempre iguais se estendem longe pelo campo, sobre o qual sopra um vento agreste. No couro fica a umidade e a fartura do solo. Sob as solas demove-se a solidão do caminho do campo pelo final da tarde. No calçado vibra o quieto chamado da terra, sua silenciosa oferta do trigo maduro, sua inexplicável recusa na desolação do campo no inverno. Por esse utensílio passa o calado desassossego pela segurança do pão, a alegria sem palavras por ter mais uma vez suportado a falta, a vibração pela chegada do nascimento e o tremor ante o retorno da morte.

Fragmento do livro "A Origem da Obra de Arte", Heidegger.