"Quanto
a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos
públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um
dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de
Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito
horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde
neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e
essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos
fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis,
fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.
Mas
tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo,
inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos
juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em
comum só podiam era dar mesmo nisso: cama.
Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi
meu deus que aconteceu? Eu pensava depois acendendo um cigarro e
não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os
bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na
vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, e
não sei se você acreditou. Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas
ela não pára, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum
físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos
melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos
vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não
endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da
gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais (...)
Não
que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor
demais, você acreditava mesmo nisso? Naquele bar infecto onde
costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil,
(...) não, não tenho nada contra decadentes em geral não tenho nada contra qualquer
coisa que soe a uma tentativa. Eu peço um cigarro e ela me atira o maço
na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo,
palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de
duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu
peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas
histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais.
Eu nunca tive porra de
ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais
individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara,
gorda, burra, alienada e completamente feliz. Podia ter dado certo entre
a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, (...) ai que
gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois
Castafieda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos
colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e
Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo 'here comes the sun
here comes the sun little darling', 70 em Nova York dançando disco-music
no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir
engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca.
Já
li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura
suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé
boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é
plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem
de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às
vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo
sal grosso nos cantos,
não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos em Sri
Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como
ontem à noite, na beira do rio, deve haver uma porra de rio por lá, um
rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem
planejar nada, de repente, sabe, por acaso, encontrei um rapaz de tez
azeitonada e olhos oblíquos que... Hein? claro que deve haver alguma
espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade
escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me
venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais
de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de
clínica, lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas,
Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava
entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci,
roubaram minha esperança, enquanto você, solidário, positivo,
apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage,
companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada,
teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bababá bababá.
As
pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha
pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me
tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e
cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não
mato, atordôo minha sede com sapatinhas do Ferro’s Bar ou encho a cara
sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste
apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que
dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida. Mas, eu quero
dizer, e ela me corta mansa, claro
que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a
única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar
na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece
com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do
que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada,
estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída,
ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio,
leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito,
depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz
integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa,
depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina
ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca
qualquer choramingando coisas tipo
preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá
e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas
não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser
continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?
Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus
dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto
tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu
então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra
meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e velha
demais e completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos
olhos, eu não tinha estes vincos em torno da boca, (...) e eu repito que não, que nada, que ela está
linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e
escolho ao acaso o noturno número dois em mi bemol de Chopin, eu quero
deixá-la assim, dormindo no escuro sobre este sofá amarelo, ao lado das
papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de
ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Ângela outra vez,
e eu viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o
banheiro onde sustento sua cabeça para que vomite, e sem querer vomito
junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, fragmentos azedos sobre as
línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a
sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor
repetindo...
Não se esqueça então de me mandar aquele cartão de Sri Lanka,
aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que
aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé
enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente
teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer
maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça
acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este
gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem
jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa
algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando.
A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair.
Por trás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Ângela, nem
que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo e repetindo
que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé,
axé! eu digo e insisto até que o elevador chegue axé, axé, axé, odara!"