Go Back

"Você reclama, meu coração não contenta. Você me ama, mas de repente a madrugada mudou e certamente aquele trem já passou. Se passou, passou... Daqui pra melhor. Foi!
(...)
Não é minha cidade, é um sistema que invento me transforma e que acrescento à minha idade. Nem é o nosso amor, é a memória que suja, a história que enferruja. O que passou não é você, nem sou mais eu. Adeus meu bem, adeus! Adeus!"


Parece sedutora a possibilidade de apagar da memória momentos que nos fazem sofrer.Tem horas que desejo existir um tratamento como o do filme, por outro lado penso: "Será que eu teria realmente coragem?". Tenho nada... Afinal são esses momentos que nos fazem crescer e entender algumas complexidades da vida. Tudo que vivemos (bom e ruim) serão lembrados como bons momentos ou momentos de superação, na verdade eles serão responsáveis por nossa constituição enquanto sujeito.

OS SOBREVIVENTES


(Para ler ao som de Ângela Ro-Ro)
Para Jane Araújo, a Magra


"Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. 


Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu? Eu pensava depois acendendo um cigarro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, e não sei se você acreditou. Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais (...) 


Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? Naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, (...) não, não tenho nada contra decadentes em geral não tenho nada contra qualquer coisa que soe a uma tentativa. Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais.


Eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, (...) ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castafieda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo 'here comes the sun here comes the sun little darling', 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca.  


Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos em Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, na beira do rio, deve haver uma porra de rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, sabe, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que... Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário, positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bababá bababá. 


As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? 


Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e velha demais e completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos olhos, eu não tinha estes vincos em torno da boca, (...)  e eu repito que não, que nada, que ela está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho ao acaso o noturno número dois em mi bemol de Chopin, eu quero deixá-la assim, dormindo no escuro sobre este sofá amarelo, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Ângela outra vez, e eu viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, fragmentos azedos sobre as línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo...


Não se esqueça então de me mandar aquele cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Por trás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Ângela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo e repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto até que o elevador chegue axé, axé, axé, odara!"


(ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.)

Impossível Manter

Deitada na cama, que fica no alto daquela torre, a menina de longos cabelos ruivos consegue observar as pessoas que passam na rua, cada uma no seu mundo. Algumas carregam problemas, outras mistérios, algumas uma solidão lânguida e outras uma paz invejável. Na mesma cama, repousa um corpo alvo como a neve, inerte, nu, que parece nem estar ali. O tempo parece tão precioso, e a cada momento, paradoxalmente, as horas parecem passar rápido e devagar. Já são 5 horas, fim do dia. Eles tinham todo o tempo para fazer o que quisessem, ela esperou o tempo todo para que ele se desse conta disso.
A noite e a solidão logo vão chegar.
Enquanto isso, o corpo outrora inerte ganha vida. E agora, ela é quem parece ser invisível. Mais pessoas passam, pela janela, talvez estão voltando pra casa. E ela ainda ali... Quando ele volta da cozinha, começa a observá-la, por um momento ela finge dormir. Não conseguem se olhar por muito tempo nos olhos, mas mesmo assim ela lhe fala palavras doces.
Finge, mente... "Não pode ter um homem melhor".
E conversa a maioria das vezes com os próprios pensamentos diante do espelho. Fala sozinha, ri e chora, esperando por alguém que ela sabe que existe, mas esta perdido por aí. Ninguém precisa saber. Mas ela sabe, que mais cedo ou mais tarde isso irá acabar. Tudo finda. Ela sabe.

A chave.



"Então resolvi fingir não causar mais comoção
E se era pra rir/ Por que eu chorei então?
E se não era pra ser/ Por que insistir então?
Mas se não era pra ser/ Por que insistir então?
Depois de um tempo me recuperei
Levantei minha auto-estima
Resolvi sair por cima
Sem pensar que também errei

E quando eu quis sair/ Você voltou
Apareceu de novo
Quando quase não havia mais você em mim/Você voltou
Quando enfim pensei que eu tava livre/ Você voltou
Aah, aah!

E a nossa história
O que vai acontecer?
Seja o que Deus quiser
Venha o que vier
Da forma como for
Ah, eu aceito
Eu aceito, amor."

[Bárbara Eugênia]





Foi há 03 anos atrás

Há 03 anos eu conheci um cara, um cara que estudava inglês e contava piadas sem graça. De vez em quando apreciava uma aguardente no fim das aulas e tinha um jeito debochado de ser. Eu só o observava de longe e não tinha tanto interesse em conhecê-lo melhor. Talvez algo conspirava contra minha decisão, depois de uma viagem para os confins do sertão, acabamos conversando sobre Pink Floyd e outras coisas... Ficamos amigos, trocamos MSN, e a vontade de se ver crescia mais e mais, reciprocamente. Numa tarde de outubro combinamos de ir à praia, o dia estava lindo... céu claro, mar azul, fim de tarde, pôr do sol regado à cervejas, cigarros e batata frita. Lembro que eu ainda gostava de fumar Gudang Garam e ele, o seu velho Hollywood, foi então que algo mágico aconteceu, tudo virava virtude, admiração... Depois de uma conversa que se estendeu até a noite, eu senti muita vontade de fazer parte daquele mundo, um mundo que eu sempre havia procurado. Tive a sorte de ter a permissão de flutuar pelo mundo dele. Um mundo que me fez gradativamente uma pessoa bem melhor.

A descoberta, um novo mundo, novas sensações, permissibilidades... momentos. Doçura, simplicidade, dedicação, companheirismo, compreensão. Sorrisos, emoções, lágrimas, dor. Somos desejo e paz, mas também uma mistura agridoce. Talvez essa seja a fórmula, afinal, quem aguentaria cair na monotonia de ser feliz o tempo inteiro? Também não vou ser infantil ao ponto de acreditar que tudo é pra sempre.
Este texto é uma celebração. Eu o escrevi pensando em quase tudo que vivi ao lado daquele cara; aquele cara que permitiu que eu invadisse sua vida, que parecia tão comum, mas que era um tesouro só esperando que eu o encontrasse. Este texto é pra dizer que eu gosto dele. Um gostar que basta, sem demasia, sem exageros. Eu apenas gosto. De olhar, de tocar, de conversar, de sentir... de verdade e bem grande.

"Já conheci muita gente, gostei de alguns garotos 
mas depois de você, os outros são os outros e só..."