Dragões não conhecem o paraíso *


* Caio Fernando Abreu/[com adaptações] 

Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. (...) Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir. Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. 
  Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.
Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pantanal de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim.
Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de s feliz.
As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir. (...)

 

Liberdade ou Esperança?

Mais vale ter liberdade ou esperança?

Gosto de fugir pra um lugar que nem ao menos tem nome,
mas que fica aqui, perdido entre essas quatro paredes.
Começo viajando, ora para um lugar além, ora para aquele passado que teima em sobreviver, faço isso pois sou livre! Tenho minha liberdade, minha imaginação.

Mas o que é ser livre?
Loucura e liberdade são faces da mesma moeda?

Liberdade é ter o que eu quero? Fazer o que desejo?
Hoje só a liberdade não basta, quero mais, muito além...
Liberdade é monotonia. Faz sentido ter o espírito livre?
Talvez sim, quando se sabe pra onde ir, pelo que lutar.
A liberdade sem sentido, em demasia, deixa um vão.
Prova disso ocorre quando abro os olhos pela manhã:
eu tenho a minha liberdade,
posso viver como eu quero!
Mas por que essa falta de algo??

Somos eternos escravos do trabalho? Do amor?
Vivemos a esperança de ter um emprego melhor? Ganhar dinheiro?
Ter um grande amor? Buscamos o modelo de vida perfeita?
A perfeição é cansativa. Mesmo assim, quero a minha perfeição.

Eu vivi dias maravilhosos. Eu queria ter parado o tempo ali.
Hoje, só existe o brilho. Eu teimo em querer. Desejo o desejo.
Quero tudo outra vez: estar sozinha, bem, sem imposições... viajando por aí descortinando vidas depois de um toque singular, numa frenética paz.

A indecisão é enlouquecedora, e esperar é um estado triste! Fechar-se e viver num mundo onde a esperança é quem dita as regras, não me apetece. A vontade flutua. Não consigo tomar as rédeas... talvez eu ainda seja imatura demais para assumir tal responsabilidade, ou indubitavelmente segura pra jogar tudo pro alto e mudar. A liberdade é minha defesa disfarçada.

Carnavalização.


Quando você estiver aqui, não precisa ir tão cedo. Não negue o abraço, deixa eu sentir teu cheiro, depois o beijo. Apenas fique - de preferência bem perto de mim. Eu prometo que você nem vai notar a noite morrer, e quando um novo dia florescer eu te farei mais feliz. Esquece tudo. Fica. Aventure-se, a vida está aí exatamente para marginalizarmos essas regras tolas, morais e ideológicas. Acredite enquanto a eternidade durar pois nunca é tarde quando se deseja algo; nunca é tarde quando vale a pena esperar, quando você e eu, sabemos que é recíproco. Gosto quando você aparece por aqui e transforma a minha rotina e a tua aparição se torna constante e provoca em mim um estado permanente de bem estar.
Isso é a carnavalização, esperada por qualquer pessoa em algum momento da vida, é a cristalização dos dias melhores. Quero para mim esse teu jeito mágico. Você chega e me ganha... Renasce um amor adormecido.