Aos 28 do segundo tempo

Bem longe das muralhas invisíveis que cercam a cidade, vou procurar um pouco de ar. Percorro uma estrada quase bucólica, esqueço por minutos quem sou e o que faço. Viajo para acabar com a vontade e com o vazio desnecessário que invadiu essa tarde. Logo à diante esta meu destino, é hora de deixar minhas ilusões para um outro momento.
A casa é simples. Ela assiste um filme bizarro na TV enquanto ele se encarrega de um serviço doméstico. Parecem fadados à rotina, numa monotonia que parece perpetuar-se. Nossas conversas são censuradas, ora pelo meu comportamento e ideias, ora pelo passado obscuro dela. Sussurramos na cozinha intimidades picantes, e no caso dela, segredos que transpareciam um certo saudosismo. Decidi comprar algo para bebermos, ela fez ovos de codorna. A conversa estendeu-se noite à dentro, e todo esse tempo fiquei a observar o seu jeito de sentar, vestir, pentear-se... o jeito de falar da própria vida. Não havia mais viço naquela mulher! Outrora enérgica, cheia de planos, pressa para realizá-los... tudo acabou-se.
E o que lhe resta é a "doce vida" do lar. 
Num instante lembrei daquele fragmento de "On the Road", mas só lembrei.
Enquanto isso, do outro lado da cidade uma mulher diverte-se. Ela bebe vinho às escondidas numa esquina na companhia de um homem interessante e complicadíssimo, ela adora aquele perigo, eles riem, debocham dos outros mortais, evitam ser reconhecidos percorrendo os becos escuros da cidade, ato que desperta ainda mais o prazer de estarem juntos. Aquele pecado faz todo sentido... interessante condição: enquanto praticam a transgressão, o proibido... essa eventualidade torna-se o paraíso. Dois corpos que nada mais querem além de empreender uma fuga daquela vida regrada, exposta, efetiva, "normal", porém... vazia, miserável, carente.
Saí dali mais confusa do que quando cheguei. Aquelas duas vidas se completavam?
Estou aos 28 do segundo tempo. E ainda gosto de observar a vida ao meu redor, talvez já esteja ficando tarde para observa tanto e deixar que minha própria vida passe diante dos meus olhos. Reconheço minha irresponsabilidade e descaso em relação às minhas tomadas de decisão, acontece que hoje eu só quero viver, simplesmente viver, dia após dia.
Sinto que aos poucos, minhas opções de condicionar o que chamam de felicidade, vão se esvaindo. Já nem sei usar a palavra amor. Mesmo assim quero viver "a" história, que pode ser breve ou longa, feia ou bonita, romantizada ou não, mas inesquecível e intensa, com todas as suas dores.